Palavras
sobre a leitura de:
"E O VENTO LEVOU"
Margaret Mitchell
Olá a você que já ouviu esse título, já assistiu ao filme ou
também teve a alegria de ler essa linda obra! Olá a você que está por aqui!
Nessa postagem decidi apresentar as minhas impressões
descontraídas (sem embasamento científico) apenas minha perspectiva sobre a
leitura de um clássico imortalizado pelo cinema "E O VENTO LEVOU". O
livro possui 951 páginas em português, traduzido por Marilene
Tombini e publicado pela editora Record em 2012.
Margaret Mitchell é a autora da obra. Descrita brevemente nessa
edição, como uma criança nascida em 1900 que escutou muitas histórias sobre a
Guerra Civil Norte-Americana e que viveu até 1945, esse livro foi sua única
obra em vida. Margaret é mais uma mulher brilhante que falou de seu tempo e
deixou para gerações um retrato de como nós lutamos pela mudança, embora
ainda tenhamos que enfrentar tantos desafios como o feminicídio, desigualdades
no trabalho, padrões e atitudes de desrespeito ao ser mulher. O livro é um
caminho muito legal para entender o conflito histórico vivido nos Estados
Unidos, pois há uma descrição rica sobre os impactos de uma guerra.
A leitura nos transporta, como se entrássemos numa cápsula do
tempo, a uma época e lugar em que as grandes damas existiam, a escravidão era
considerada natural e necessária, mulheres e homens conviviam com rigorosos
padrões de comportamento e religiosidade. Registra um período em que ianques e
sulistas travaram uma Guerra duradoura e que levou muitas vidas para um caminho
completamente diferente. Temas como a escravidão, são tratados pelo prisma dos
sulistas, o que implica nos depararmos com o preconceito racial natural e
justificado, o glamour da guerra e o gosto amargo de suas consequências,
perdas, a necessidade de profundas mudanças e a resistência em aceitá-las.
O processo de liberdade, transformações econômicas, sociais,
arquitetônicas, da moda, dos costumes e cultura, todos enxergados através das
vidas e palavras das personagens do livro, aproximam o leitor do íntimo de cada
um deles e deixam as claras o modo sensível de escrita da autora. Outro ponto
sensível da obra está na exploração das densidades psíquicas presentes nos
discursos, pensamentos, emoções, sentimentos, medos, ansiedades, dramas
existenciais e atitudes de cada uma das personagens.
Estruturalmente o livro está dividido
em cinco partes e 63 capítulos nos quais o tempo transcorre de modo singular na
realidade intima de cada personagem e de forma macroscópica diante do quadro
social e histórico. Os acontecimentos
são encadeados por diversas variáveis como as transformações em cidades,
comportamentos, economia, tradições, fatos notados em descrições de Tara,
Atlanta, Savannah e outras cidades citadas, nos costumes, pensamentos dos próprios
personagens, em suas lembranças. A guerra toma o lugar de estopim de toda essa
mudança, pois é nutrida por fortes sentimentos de patriotismo, conservadorismo
de uma sociedade fundada no cultivo do algodão e bens agrícolas que entra em
choque com as ideias de liberdade e de direitos civis para os negros e com os
valores ianques. A ku klux klan é
apresentada como símbolo de resistência e de orgulho para os sulistas, bem como
a política é abordada como elemento atmosférico e ao mesmo tempo concreto diante
de toda a realidade do texto.
Sobre as personagens, há um número de
várias vidas abordadas, uma riqueza em tratar de tantas pessoas em suas mais
simples e complexas características, encantos, falhas de personalidade,
fragilidades e força, energia e valores, realismos e sonhos, todos abordados de
forma simples e suficientes por Margaret.
Um fato que notei durante a leitura foi
o cuidado e falar dos descendentes, das origens e por isso escolho falar sobre
os pais da personagem principal Katie
Scarlett O'Hara : Ellen e Gerald
O’Hara. Eles formam um casal tradicional, contudo o sr. O’Hara era um irlandês (“o menor de uma família robusta”
) com estatura de 1,61m, compacto e valente, cabeça-dura, fanfarrão que fez
fortuna que escolheu, ao chegar na América, tomar para si as ideias e costumes sulistas
que envolviam: “o pôquer, corridas de cavalo, política inflamada e o código de
duelos abominação a todos os ianques, escravatura e o Rei Algodão, desprezo
pelos ditos brancos ordinários, boa resistência ao uísque, e exagerada cortesia
para com as mulheres, sem contudo conseguir ser nada elegante”. Já a sra. Ellen era uma grande dama, de descendência nobre
da família Robillard, tendo sofrido uma
decepção amorosa que a fez amadurecer e
decidir casar-se com Gerald com quem teve suas três filhas Scarlett,
Suellen, e Carreen mais três meninos que morreram antes de completarem anos de
vida. A sra. O’Hara era gentil, dócil e
bela, além de dirigir a casa e todos os subordinados aos serviços e cuidados de
Tara, preparada para o casamento ela conseguia conduzir sua família com graça e
distinção como uma moça bem criada por Mammy, dentro dos padrões da época.
Falando das origens, Mammy deve ser
citada por ser era uma negra retinta vinda diretamente da África que fora aia
de Ellen desde o seu nascimento e que estendeu seus cuidados as três filhas de
Ellen, possuindo o lugar de autoridade e afeto na família, de muita força, pois
é ela quem enxerga com clareza todas as mudanças de Scarllet e a cuida como mãe
mesmo sendo negra e vivendo como escrava,aparenta sua resignação e demonstra o
conformismo e aceitação negra a escravidão que já para ela não denota um lugar
de miséria humana consciente.
Sabendo sobre a origem de Scarlett O’Hara, ressalto sua beleza, o fato de Margarett a
criar como uma jovem caprichosa, forte, determinada e que durante toda a obra conseguiu
ser resiliente e a seu modo conquistou fortuna. A herança irlandesa do pai,é sempre
rememorada pela autora que demarca a hereditariedade, o sangue, pois assim como
o pai, Scarlett encontrava forças na terra de sua família: Tara, preservando a
Irlanda em sua constituição.
Sinceramente, a melhor forma de conhecer a protagonista será
lendo a obra, pois ela evoca uma
torrente de sentimentos no leitor, bem como o faz em todos os personagens da
obra, todos os olhares sempre voltam-se para Scarlett e assim são despertados desde
admiração, amor, paixão, confiança até a raiva, incômodos diante de seu egoísmo
e pensamento extremamente prático, de veia empreendedora forte, valorização a frugalidades, comportamentos infantis
de “birra”, e obsessão cega pelo amor e
apresso de Ashiley Wilkes, deparando o leitor com sentimentos de inveja,
menosprezo, insensibilidades, inseguranças, medos, ambição, agressividade e até
mesmo de violência.
Em Scarlett se encontra o maior processo de
transformação em toda a história, é nela que se firma o enredo e a temporalidade,
as passagens psicológicas os padrões de comportamento e condutas, as regras e
as metamorfoses, as lentes de toda a obra estão pelo olhar de Scarlett, que foi
mãe de Wade Hamilton, de Ella Kennedy e de Bonny Butler, cada filho de um
casamento, de momentos existenciais diferentes, de necessidades diferentes.
Simbolicamente na vida da protagonista o vento leva tudo...ela acaba sendo como
o vento
São muitos os pontos a serem
explorados, porem quero ressaltar o fato
de a gravidez ser um sinal de vergonha, de reclusão ao lar por parte das
mulheres. Os momentos de gravidez de Scarlett eram mediados pelo social que
concebia como belo desde que a maternidade escondesse a sexualidade, que os incômodos
dos nove meses de reclusão social fossem levados, contudo aconteceram abstenções
que foram quebradas por Scarlett, um espirito além de sua época que avançou “masculinizando-se”
e sendo julgada pelos caminhos que tomou, embora continuasse a bela mulher
preocupada com sua beleza e em ter recursos para cuidar de si, de Tara e
daqueles que amava. Despertou raiva e indiferença, pois todos os conhecidos do
pós-guerra esperavam que ela permanecesse saudosa e sofrendo pela guerra assim
como eles e isso ela não fez.
É paradoxal e ao mesmo tempo é racional
toda a história dessa personagem que despertou e viveu um romance perpassado
pela guerra civil e interior com Rhett Butler, o personagem mais sedutor e
cativante por sua personalidade e caráter, inteligência, força, virilidade que
viveu um forte amor não correspondido por Scarlett e que por fim a abandona diante de tudo que
transcorreu ao longo do drama de amor dos dois, depois de tanta falta de
reciprocidade e companheirismo dado o amor que ela nutria por Ashley Wilkes e
pelo orgulho que Rhett teve que sustentar para que ao admitir seu amor profundo
não fosse preterido pela linda e impiedosa Scarlett.
Outros personagens muito importantes e
ricos são Ashley Wilkes e Melanie Hamilton que são primos, se casam e vivem sua história de
amor romântico, sempre ligados a Scarllet por laços de amor e gratidão, eles
compõem na história uma linda ode a todos os valores mais nobres e as
fragilidades humanas, patrióticas de um tempo. Essas personagens transpiram a sensibilidade
e abstração, são pares, equivalentes que não conseguiram deixar os momentos anteriores
à guerra e que se adaptaram com muitas dificuldades a realidade do pós-guerra
civil. Considero necessário falar do valor da grande dama Melanie, por
representar na obra o amor humano incondicional, a bondade, o altruísmo,
dignidade e delicadezas incomparáveis e que no final de todo o romance cresce
em força e apresenta-se como refúgio até mesmo para Scarlett e ao capitão
Butler.
Para finalizar as impressões, considero
muito importante e bacana aliar a leitura do livro ao filme, pois realmente a
produção cinematográfica consegue capturar a obra literária nas partes mais
valiosas e fortes, as falas mais precisas e repetidas por cada uma das personagens.
Os atores conseguem transmitir a essência de toda a realidade da obra e
particularmente não consigo conceber outras pessoas atuando como Melanie
Hammilton e como Rhett Butler eternizados
por Olivia de Havilland e Clark Gable , assim como nossa heroíca Katie Scarlett
O'Hara vivida por Vivien Leigh.
Assistam ao filme, mas leiam o livro também!!
Trata-se de um valioso presente que
Margaret Mitchell deixou para todos nós!