segunda-feira, 3 de setembro de 2018




Palavras sobre a leitura de:

"E O VENTO LEVOU"
Margaret Mitchell

Olá a você que já ouviu esse título, já assistiu ao filme ou também teve a alegria de ler essa linda obra! Olá a você que está por aqui!
Nessa postagem decidi apresentar as minhas impressões descontraídas (sem embasamento científico) apenas minha perspectiva sobre a leitura de um clássico imortalizado pelo cinema "E O VENTO LEVOU". O livro possui  951 páginas em português, traduzido por  Marilene Tombini e publicado pela editora Record em 2012. 

Margaret Mitchell é a autora da obra. Descrita brevemente nessa edição, como uma criança nascida em 1900 que escutou muitas histórias sobre a Guerra Civil Norte-Americana e que viveu até 1945, esse livro foi sua única obra em vida. Margaret é mais uma mulher brilhante que falou de seu tempo e deixou para gerações um retrato de como  nós lutamos pela mudança, embora ainda tenhamos que enfrentar tantos desafios como o feminicídio, desigualdades no trabalho, padrões e atitudes de desrespeito ao ser mulher. O livro é um caminho muito legal para entender o conflito histórico vivido nos Estados Unidos, pois há uma descrição rica sobre os impactos de uma guerra.
A leitura nos transporta, como se entrássemos numa cápsula do tempo, a uma época e lugar em que as grandes damas existiam, a escravidão era considerada natural e necessária, mulheres e homens conviviam com rigorosos padrões de comportamento e religiosidade. Registra um período em que ianques e sulistas travaram uma Guerra duradoura e que levou muitas vidas para um caminho completamente diferente. Temas como a escravidão, são tratados pelo prisma dos sulistas, o que implica nos depararmos com o preconceito racial natural e justificado, o glamour da guerra e o gosto amargo de suas consequências, perdas, a necessidade de profundas mudanças e a resistência em aceitá-las.
O processo de liberdade, transformações econômicas, sociais, arquitetônicas, da moda, dos costumes e cultura, todos enxergados através das vidas e palavras das personagens do livro, aproximam o leitor do íntimo de cada um deles e deixam as claras o modo sensível de escrita da autora. Outro ponto sensível da obra está na exploração das densidades psíquicas presentes nos discursos, pensamentos, emoções, sentimentos, medos, ansiedades, dramas existenciais e atitudes de cada uma das personagens. 

Estruturalmente o livro está dividido em cinco partes e 63 capítulos nos quais o tempo transcorre de modo singular na realidade intima de cada personagem e de forma macroscópica diante do quadro social e histórico.  Os acontecimentos são encadeados por diversas variáveis como as transformações em cidades, comportamentos, economia, tradições, fatos notados em descrições de Tara, Atlanta, Savannah e outras cidades citadas, nos costumes, pensamentos dos próprios personagens, em suas lembranças. A guerra toma o lugar de estopim de toda essa mudança, pois é nutrida por fortes sentimentos de patriotismo, conservadorismo de uma sociedade fundada no cultivo do algodão e bens agrícolas que entra em choque com as ideias de liberdade e de direitos civis para os negros e com os valores ianques.  A ku klux klan é apresentada como símbolo de resistência e de orgulho para os sulistas, bem como a política é abordada como elemento atmosférico e ao mesmo tempo concreto diante de toda a realidade do texto.
Sobre as personagens, há um número de várias vidas abordadas, uma riqueza em tratar de tantas pessoas em suas mais simples e complexas características, encantos, falhas de personalidade, fragilidades e força, energia e valores, realismos e sonhos, todos abordados de forma simples e suficientes por Margaret.
Um fato que notei durante a leitura foi o cuidado e falar dos descendentes, das origens e por isso escolho falar sobre os pais da personagem principal Katie Scarlett O'Hara : Ellen e Gerald  O’Hara. Eles formam um casal tradicional, contudo o sr. O’Hara era  um irlandês (“o menor de uma família robusta” ) com estatura de 1,61m, compacto e valente, cabeça-dura, fanfarrão que fez fortuna que escolheu, ao chegar na América, tomar para si as ideias e costumes sulistas que envolviam: “o pôquer, corridas de cavalo, política inflamada e o código de duelos abominação a todos os ianques, escravatura e o Rei Algodão, desprezo pelos ditos brancos ordinários, boa resistência ao uísque, e exagerada cortesia para com as mulheres, sem contudo conseguir ser nada elegante”.  Já a sra.  Ellen era uma grande dama, de descendência nobre da família  Robillard, tendo sofrido uma decepção amorosa que a fez amadurecer e  decidir casar-se com Gerald com quem teve suas três filhas Scarlett, Suellen, e Carreen mais três meninos que morreram antes de completarem anos de vida.  A sra. O’Hara era gentil, dócil e bela, além de dirigir a casa e todos os subordinados aos serviços e cuidados de Tara, preparada para o casamento ela conseguia conduzir sua família com graça e distinção como uma moça bem criada por Mammy, dentro dos padrões da época.
Falando das origens, Mammy deve ser citada por ser era uma negra retinta vinda diretamente da África que fora aia de Ellen desde o seu nascimento e que estendeu seus cuidados as três filhas de Ellen, possuindo o lugar de autoridade e afeto na família, de muita força, pois é ela quem enxerga com clareza todas as mudanças de Scarllet e a cuida como mãe mesmo sendo negra e vivendo como escrava,aparenta sua resignação e demonstra o conformismo e aceitação negra a escravidão que já para ela não denota um lugar de miséria humana consciente.  
Sabendo sobre a origem de Scarlett O’Hara,  ressalto sua beleza, o fato de Margarett a criar como uma jovem caprichosa, forte, determinada e que durante toda a obra conseguiu ser resiliente e a seu modo conquistou  fortuna. A herança irlandesa do pai,é sempre rememorada pela autora que demarca a hereditariedade, o sangue, pois assim como o pai, Scarlett encontrava forças na terra de sua família: Tara, preservando a Irlanda em sua constituição.
Sinceramente, a  melhor forma de conhecer a protagonista será lendo a obra, pois ela  evoca uma torrente de sentimentos no leitor, bem como o faz em todos os personagens da obra, todos os olhares sempre voltam-se para Scarlett e assim são despertados desde admiração, amor, paixão, confiança até a raiva, incômodos diante de seu egoísmo e pensamento extremamente prático, de veia empreendedora forte,  valorização a frugalidades, comportamentos infantis de “birra”, e obsessão cega  pelo amor e apresso de Ashiley Wilkes, deparando o leitor com sentimentos de inveja, menosprezo, insensibilidades, inseguranças, medos, ambição, agressividade e até mesmo de violência.
 Em Scarlett se encontra o maior processo de transformação em toda a história, é nela que se firma o enredo e a temporalidade, as passagens psicológicas os padrões de comportamento e condutas, as regras e as metamorfoses, as lentes de toda a obra estão pelo olhar de Scarlett, que foi mãe de Wade Hamilton, de Ella Kennedy e de Bonny Butler, cada filho de um casamento, de momentos existenciais diferentes, de necessidades diferentes. Simbolicamente na vida da protagonista o vento leva tudo...ela acaba sendo como o vento
São muitos os pontos a serem explorados, porem quero  ressaltar o fato de a gravidez ser um sinal de vergonha, de reclusão ao lar por parte das mulheres. Os momentos de gravidez de Scarlett eram mediados pelo social que concebia como belo desde que a maternidade escondesse a sexualidade, que os incômodos dos nove meses de reclusão social fossem levados, contudo aconteceram abstenções que foram quebradas por Scarlett, um espirito além de sua época que avançou “masculinizando-se” e sendo julgada pelos caminhos que tomou, embora continuasse a bela mulher preocupada com sua beleza e em ter recursos para cuidar de si, de Tara e daqueles que amava. Despertou raiva e indiferença, pois todos os conhecidos do pós-guerra esperavam que ela permanecesse saudosa e sofrendo pela guerra assim como eles e isso ela não fez.
É paradoxal e ao mesmo tempo é racional toda a história dessa personagem que despertou e viveu um romance perpassado pela guerra civil e interior com Rhett Butler, o personagem mais sedutor e cativante por sua personalidade e caráter, inteligência, força, virilidade que viveu um forte amor não correspondido por Scarlett  e que por fim a abandona diante de tudo que transcorreu ao longo do drama de amor dos dois, depois de tanta falta de reciprocidade e companheirismo dado o amor que ela nutria por Ashley Wilkes e pelo orgulho que Rhett teve que sustentar para que ao admitir seu amor profundo não fosse preterido pela linda e impiedosa Scarlett.   
Outros personagens muito importantes e ricos são Ashley Wilkes e Melanie Hamilton que  são primos, se casam e vivem sua história de amor romântico, sempre ligados a Scarllet por laços de amor e gratidão, eles compõem na história uma linda ode a todos os valores mais nobres e as fragilidades humanas, patrióticas de um tempo. Essas personagens transpiram a sensibilidade e abstração, são pares, equivalentes que não conseguiram deixar os momentos anteriores à guerra e que se adaptaram com muitas dificuldades a realidade do pós-guerra civil. Considero necessário falar do valor da grande dama Melanie, por representar na obra o amor humano incondicional, a bondade, o altruísmo, dignidade e delicadezas incomparáveis e que no final de todo o romance cresce em força e apresenta-se como refúgio até mesmo para Scarlett e ao capitão Butler.
Para finalizar as impressões, considero muito importante e bacana aliar a leitura do livro ao filme, pois realmente a produção cinematográfica consegue capturar a obra literária nas partes mais valiosas e fortes, as falas mais precisas e repetidas por cada uma das personagens. Os atores conseguem transmitir a essência de toda a realidade da obra e particularmente não consigo conceber outras pessoas atuando como Melanie Hammilton e como Rhett Butler  eternizados por Olivia de Havilland e Clark Gable  , assim como nossa heroíca  Katie Scarlett O'Hara  vivida por Vivien Leigh.
Assistam ao filme, mas leiam o livro também!! Trata-se de um valioso presente que  Margaret Mitchell deixou para todos nós!

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